Guerra do trono na Arábia Saudita inclui até Bin Laden; entenda

o dia 4 de novembro, um sábado, 11 príncipes e 38 políticos e empresários da Arábia Saudita foram presos em uma operação anticorrupção decretada pelo príncipe-herdeiro Muhammad bin Salman. Todos foram confinados em um hotel de luxo na capital, Riad.
A prisão foi anunciada para todo o país pela rede de televisão Al Arabiya, responsável pelos comunicados oficiais. Entre os detidos no Ritz-Carlton está o príncipe Alwaleed Bin Talal, homem mais rico do mundo árabe.
De acordo com especialista ouvido pelo UOL, disputas internas pelo poder são comuns na Arábia Saudita, que tem como regime uma monarquia familiar de linha autoritária. O que chama atenção neste caso é a forma nada sutil com que esta briga pelo trono (ou pela manutenção dele) está sendo escancarada e como isso pode afetar as relações de todo o Oriente Médio.

O dono do trono

Para entender esta crise atual, é preciso, primeiro, conhecer o principal personagem dessa disputa: o príncipe-herdeiro Muhammad bin Salman. Filho do atual rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud, o jovem de 32 anos tem um papel influente na política do país desde que o pai assumiu, em janeiro de 2015.
Enérgico, Salman acumula os cargos de vice-primeiro-ministro, assessor especial do rei, ministro da Defesa, o que lhe confere o comando do exército, e presidente do Conselho de Assuntos Econômicos e Desenvolvimento, que lhe dá poder sobre a regulação do petróleo, principal bem do país. Em junho deste ano, tornou-se ainda príncipe-herdeiro, cargo mais almejado abaixo do rei.
Junto ao pai, o jovem tem mudado a política interna e externa do país. No plano econômico, por exemplo, anunciaram a construção de uma cidade futurística no Mar Vermelho que deve “estimular o capitalismo mundial”. Estima-se que o projeto custará US$ 500 bilhões.
Salman também tem mexido em posições mais delicadas. Em um discurso neste ano, prometeu promover um Islã mais “tolerante”. Como prova disso, em setembro, liberou as mulheres sauditas de dirigir, decisão histórica para o país, pela qual ele se diz responsável.
Para isso, Salman comprou brigas com conservadores e religiosos. Alguns deles acabaram presos. Agora, fez o mesmo com supostos rivais políticos e homens influentes no país.
“Esse tipo de disputa é muito comum em uma monarquia ditatorial como a Arábia Saudita”, afirma Reginaldo Nasser, professor-doutor de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em entrevista ao UOL. “Dessa forma, o conflito não aparece por meio de eleições ou debates, como em uma democracia, mas por atos como este. Foi claramente uma demonstração de força.”

Os concorrentes
As prisões não foram aleatórias. Entre os presos no hotel de luxo, há três nomes que chamam mais atenção: o príncipe Alwaleed Bin Talal, Bakr bin Laden e Alwaleed al-Ibrahim.
Talal é o homem mais rico do mundo árabe. Segundo a revista “Forbes”, o empresário tem hoje uma fortuna estimada em US$ 16,6 bilhões. Tanto dinheiro lhe confere poder e influência internacional.
Bin Laden, cujo sobrenome não nega o parentesco com Osama, é presidente da Saudi Binladin Group, maior empreiteira do país e, também segundo a publicação norte-americana, quinta empresa mais influente do Oriente Médio.
Por fim, al-Ibrahim é o presidente e principal acionista da rede de televisão MBC, uma das maiores companhias de mídia do Golfo.
“O que é preciso entender é que não há ninguém com visão democrática, progressista ali. São homens com muito dinheiro e muito poder”, afirma Nasser. “Esta atitude denota essa disputa pelo poder entre as famílias. É quase uma briga de compadre.”
O hotel Ritz-Carlton, que, ironicamente, poucas semanas antes da intervenção abrigou uma conferência internacional com executivos do mundo inteiro em que empresas dos detidos participaram, não permite reservas até o começo de dezembro, o que acena que a disputa está longe de acabar.
Implicações externas
De acordo com Nasser, esta demonstração de força vai além da disputa pelo poder internamente.
“A Arábia Saudita é um ator que sempre se movimentou muito regionalmente — e sempre teve influência sobre o Oriente Médio”, afirma o especialista. “Mas de forma sutil. Atualmente, no entanto, o que chama a atenção é a intensidade como ela tem jogado o jogo.”
Nasser destaca dois pontos recentes que apontam para este pensamento: a acusação do Qatar de terrorismo e a renúncia do primeiro-ministro do Líbano.
Em junho deste ano, os países do Golfo, liderados pela Arábia Saudita, romperam relações diplomáticas com o Qatar, que o país árabe acusou de “apoiar o terrorismo”. “Nós sabemos que não é isso”, afirma Nasser. “O que se dá é uma disputa de influência, já que o Qatar estreitou seus laços com o Irã, principal inimigo saudita.”
A mesma leitura pode ser feita na renúncia do primeiro-ministro libanês, Saad Hariri, no dia 4 de novembro (mesmo dia das prisões), em solo saudita. Hariri acusou o grupo Hezbollah de ter o controle do país e ser apoiado pelo Irã.
“O Líbano é um território disputado por sua localização no mar [Mediterrâneo] e proximidade com Israel”, diz Nasser. “O primeiro-ministro se sentiu pressionado e foi buscar refúgio na Arábia Saudita. É claro que eles estão na disputa.”
“Mas, de novo, o que chama a atenção é essa assertividade”, afirma o especialista. “Eles convocaram a imprensa para chamar o Qatar de terrorista. Podemos ler isso tudo, inclusive a demonstração de força interna, como um recado para o Irã.”
noticias.uol.com.br

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